Bolsonaro recebe carta de repúdio, após declarações preconceituosas contra entidades quilombolas

Bolsonaro criticou mulheres, negros, indígenas e refugiados. No estado, a Malungu, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará, lançou uma carta de repúdio às declarações do político.

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Após declarações preconceituosas em uma palestra na zona sul do Rio de Janeiro, na última segunda-feira (3), o deputador Jair Bolsonaro (PSC-RJ) vem despertando ainda mais a ira de vários grupos sociais em todo o Brasil. O discurso ocorreu para uma plateia que lotou o auditório do Clube Hebraica. Dentre as frases que chamaram a atenção (de forma mais que negativa), Bolsonaro criticou mulheres, negros, indígenas e refugiados. No estado, a Malungu, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará, lançou uma carta de repúdio às declarações do político.

Depois de afirmar ter visitado uma comunidade quilombola, Bolsonaro compartilhou sua conclusão: ‘O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles.’ Em outro momento, o deputado disse que tem ‘cinco filhos, quatro são homens, no quinto eu dei uma fraquejada, veio uma mulher’. ‘Não podemos abrir as portas para todo mundo’, declarou em referência aos refugiados.

Em nota, dentre outros apontamentos, a Malungu ressaltou que as palavras utilizadas durante o discurso do deputado tinham cunho racista e distriminatório à negros e outros grupos tradicionais. Além disso, a entidade quilombola destacou que o uso de diversas expressões estavam ligadas a animais. Confira a carta na íntegra:

Carta de repúdio a Jair Bolsonaro

A MALUNGU, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará, vem a público repudiar veementemente as declarações feitas pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) sobre quilombolas e indígenas, na última segunda-feira, 3 de abril. Suas declarações foram dirigidas a cerca de 300 pessoas, no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro.

Na sua fala, o deputado se utilizou de expressões racistas e discriminatórias para se referir aos negros e a outros grupos tradicionais. Palavras frequentemente atribuídas a animais, como “arrobas” e “reprodutor”, típicas do regime escravocrata que perdurou no Brasil por séculos, são ofensas diretas a nós, grupos negros, que sofremos ainda hoje as consequências da exploração a que nossos antepassados foram submetidos.

O deputado mencionou ainda que bilhões de reais são destinados a comunidades tradicionais, como se fosse parte do orçamento desperdiçado, ao invés de demonstrar a obrigação do Estado de garantir os direitos dessas comunidades. Ele ressaltou, ainda, que se dependesse de sua vontade e de um possível governo sob sua administração, nenhum centímetro a mais de território seria destinado aos grupos tradicionais. Ambos os pontos vão de encontro às normas

legais registradas tanto na Constituição Federal de 1988, quanto em normativas internacionais, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.

Levando em conta que o referido deputado manifestou sua opinião pessoal atribuindo ofensas de forma generalizada a negros e indígenas, solicitamos às autoridades de Estado que as sanções legais referentes ao crime de racismo sejam a ele aplicadas.

Lamentamos também que o Clube Hebraica Rio tenha cedido espaço para falas públicas que reforçam racismo, ódio e discriminação contra negros e indígenas, que já se encontram em diversas situações de precariedade e de violência pelo país.

Ressaltamos que temos orgulho de sermos quilombolas, de nossa ancestralidade e de tudo o que nos identifica: nossas formas de ser e viver, nossos territórios, nossa religiosidade, nossa beleza. Não nos calaremos diante de tamanhas ofensas e não deixaremos de lutar pelos nossos direitos e por um país mais justo.

Assinam esta carta os quilombolas do Pará.

Belém, 6 de abril de 2017.’

Na tarde de hoje, a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) protocolará uma representação contra o deputado na Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília. O documento aponta a prática do crime de racismo, previsto no artigo 20, parágrafo 2° da Lei Federal 7.716/1989, e pede que a PGR inicie uma ação penal contra o deputado.

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